segunda-feira, 16 de março de 2020

MAIS CORNADAS DÁ A VIDA QUE UM TOIRO TRESMALHADO…


Por: Catarina Bexiga

O mundo está em estado de alerta. É certo que tenho mais tempo para escrever, mas menos motivação. O Coronavírus deixa-nos a todos sem resposta para muitas perguntas. No dia de “ontem” estávamos tranquilos e seguros; hoje aconselham-nos ao isolamento social; existem filas longas nos supermercados e muitas pessoas às portas das farmácias, restaurantes quase todos fechados… não há futebol, não há cinema, não há teatro, não há concertos, não há toiros… não há nada!

Em Espanha já se cancelaram as Feiras de Valência (8 espectáculos), Castellón (7), Arnedo (2), Arles (6) e Sevilha (14); os primeiros espetáculos de Madrid (2), como também a corrida de Morón de la Frontera e o festival de Murcia. Ou seja, 41 espetáculos que não se realizam, o mesmo é dizer 246 toiros que ficam no campo.

Em Portugal estão sem efeito as datas anunciadas para Beja, Moita, Santarém, Chamusca, Vila Franca de Xira, Redondo, Almeirim, Alpalhão e Amareleja. 9 espectáculos anulados e 54 toiros no campo.

Como disse o ganadero Santiago Domeccq “Desgraciadamente el campo no sobrevive a una cuarentena. Es verdade que allí estas casi aislado, pero los animales necesitan una serie de cuidados diários y somos nosotros, los que los amamos, responsables…”  
O Coronavíris irá trazer consequências desastrosas para todos os sectores, inclusive o sector taurino. Sabemos da quantidade de pessoas que vivem da Festa de Toiros, um “universo” que vai para lá dos toureiros, ganaderos, empresários…

Inclusive a Revista Novo Burladero também já suspendeu a sua edição mensal até que a temporada recomece. Mas preparados para voltar logo que a pandemia seja dada como superada.  

Neste momento, todos temos que ser conscientes. Da nossa atitude hoje, depende o nosso dia de amanhã. Fique em casa! A falar de toiros. A ler de toiros. Juntos (com Fé em Deus e Esperança) vamos superar esta “cornada”. Como os toureiros valentes!

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

MAGISTRAL LIÇÃO DE TOUREIO A CAVALO!


Por: Catarina Bexiga

Tão importante quanto colocar em prática na arena o Toureio a Cavalo é saber explica-lo, transmiti-lo e valorizá-lo! Essa é uma “herança” importantíssima que, com o passar dos anos, se tem vindo a desaproveitar… Perdeu-se o hábito de ouvir, de falar e de ler sobre o que é o Toureio a Cavalo. E isso nota-se cada vez mais por todo o lado! Como escreveu Fernando Sommer d’Andrade “Para que o público não se aborreça é necessário que entenda os «pequenos nadas» de que é feita a lide e, só assim, lhe será dado a verificar que não há duas actuações iguais por as condições dos toiros diferirem de uns para outros, por a disposição do cavalo e, até o estado de espírito do cavaleiro, variarem de dia para dia.”

O colóquio de ontem no Montijo sobre o Toureio a Cavalo, com a presença de Emídio Pinto e António Ribeiro Telles – magistrais nas suas explicações – acompanhados pelos testemunhos de Luís Rouxinol Jr., foi uma abordagem conhecedora, concreta e clara sobre o tema. O “ABC do Toureio a cavalo”, aquele que a maioria do público (entre entusiastas e aficionados) deve saber…
Por considerar de extrema importância, partilho (embora resumidamente) os 10 pontos analisados na noite de ontem:

1 – INICO DE CADA CARREIRA: Cada um dos intervenientes apresentou a sua história de vida e falou de quem os marcou nas suas origens. Emídio Pinto referiu-se a Frederico Cunhas, e aos irmãos Manuel e Alfredo Conde, bem como D. José d’Atayde; António Ribeiro Telles ao seu pai Mestre David Ribeiro Telles; e Luís Rouxinol Jr. ao seu pai Luís Rouxinol.

2 – A IMPORTÂNCIA DA EQUITAÇÃO: Todos defenderam a ideia de que ter equitação permite mais facilmente tirar partido de cada cavalo; saber pô-los, saber aproveitá-los, saber corrigi-los, etc. Mas que uma coisa é o bom cavaleiro e outra é o cavaleiro bonito.
3 – BREGAR/LIDAR/TOUREAR: O significado é o mesmo e de máxima importância. Entender o toiro (terrenos, distancias, etc.) para mais brilhantemente atingir o culminar do toureio, cravar o ferro ao estribo!

4 – OS MARCOS NA EVOLUÇÃO DO TOUREIO A CAVALO: Para além de outros nomes que aportaram história à própria história do Toureio a Cavalo foram referenciados como os grandes “revolucionários”: João Núncio, José Mestre Batista e João Moura.

5 – AS GRANDES DUPLAS DO TOUREIO A CAVALO: Foram sem dúvida épocas importantes. As grandes duplas formadas por João Núncio/Simão da Veiga, José Mestre Batista/Luís Miguel da Veiga e António Telles/João Salgueiro enriqueceram de sobremaneira a nossa identidade.  

6 – O TOIRO BOM E O TOIRO MAU: Todos defenderam a ideia de que o toiro bom é o que vai pelo seu caminho. Até pode ter raça. Até pode empurrar. O toiro mau é o que se adianta, é o que se atravessa, é o que desconfia os cavalos (e até os cavaleiros).

7 – O CAVALO DE TOUREIO: Para além das capacidades naturais (força, habilidade, etc.), o mais importante no cavalo de toureio é ter boa cabeça. Capacidade para perceber o que se lhe quer ensinar e capacidade para todos os dias “dar a cara”. A ilusão com os cavalos novos marca cada Inverno. Mas todos defenderam que em casa, com as vacas, todos os cavalos parecem funcionar; o problema é quando o toiro aparece, e quando se toureia hoje, amanhã e depois de amanhã. 

8 – AS COUDELARIAS NO TOUREIO: Nos últimos tempos os Lusitanos melhoraram muito; mas o mercado dos cavalo que tinham uma percentagem de cruzamente (exemplo de Coudelarias como Gama, Atalaya ou Rio Frio), o que lhes permitia ter outras capacidades físicas, é o mais apetecido pelos toureiros. No entanto, esse mercado tem vindo a desaparecer e hoje é cada vez mais difícil encontrar o cavalo ideal.

9 – SORTES DO TOUREIO: Todas as sortes têm o seu valor. Uma “gaiola” tem muito valor mesmo, e uma “tira” também! Foi defendida a verdade do toureio como o corredor formado por duas linhas paralelas, que saem dos pitons do toiro, até ao peito do cavalo. E foi clarificado que, antes da reunião, se existir um desvio à direita, desequilibra-se o toiro; e se existir um desvio à esquerda, o cavalo atravessa-se… O termo “carregar a sorte ao pitón contrário” – muito na moda nos templos actuais – foi questionado até que ponto não é “descarregar a sorte”, visto que manda o toiro para fora da sua trajetória natural…

10 – QUAL O FUTURO? Para além da preocupação com os movimentos animalistas, que cada fez asfixiam mais o espectáculo taurino, falou-se no diminuto número de cavaleiros amadores que fazem parte do actual escalafón; e no regresso do toiro que transmita emoção, para que seja dado valor à obra do toureiro.

Em suma, uma grande noite de Toureio a Cavalo fora das arenas!

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

O QUE FICOU DA RECÉM- TERMINADA FEIRA TAURINA DE OUTUBRO NA PALHA BLANCO


Por: Catarina Bexiga

Nos tempos que correm, há quem defenda a necessidade de um certo triunfalismo para uma maior presença da Tauromaquia na sociedade. Pessoalmente, tenho dificuldade em aceitar essa estratégia. Porque um triunfalismo balofo, um triunfalismo camuflado, um triunfalismo despropositado… alimenta o ego de alguns, mas não dá crédito, não dá glórias… e afasta muitos aficionados das bancadas. Isto para falar da afición de Vila Franca. É a única terra onde a palavra Exigência é conservada. É a única terra onde ainda se sente respeito! E isso foi evidente na recém-terminada Feira Taurina de Outubro. Se existissem mais “vilafrancas” teríamos uma Festa com menos atrevimento e mais integridade! Uma Festa com menos folclore (sem nenhum desprimor para esta prática) e com mais seriedade!

Terminada a Feira Taurina de Outubro, ficam algumas recordações / reflexões:

SÁBADO, 5: Novilhada de oportunidade. Em disputa estava o Prémio incentivo do Grupo Tauromáquico Sector 1 para a melhor faena. Foi justamente ganho por Fábio Jiménez da Escola Taurina de Salamanca. Tocou-lhe o melhor novilho de Palha e soube aproveitá-lo. No entanto, não posso deixar de mencionar o nome dos dois novilheiros portugueses que integraram o cartel: as maneiras de Filipe Martinho (Moita) e o querer de Duarte Silva (Vila Franca). A cavalo, Francisco Correia Lopes revelou bom conceito e Joaquim Brito Paes deixou boa impressão. Pelos Juvenis de Vila Franca, pegaram Rodrigo Andrade e Rafael Plácido, ambos à primeira tentativa.

DOMINGO, 6: Corrida Mista. Rouxinol pai e filho vinham dispostos a gravar o seu nome na história da Feira. A lide a duo começou de forma empolgante, mas depois dos compridos o toiro partiu um pitón e desvaneceram-se as intenções… Posteriormente, Rouxinol pai superou com oficio as dificuldades do seu Palha e Rouxinol filho (com um toiro mais colaborador) voltou a fazer da disposição e ambição a sua bandeira. Tarde frustrante teve o Grupo de Vila Franca. Com a lesão de dois toiros, apenas pegaram um. Concretizou João Luz à segunda tentativa. A corrida de Palha saiu com “teclas para tocar” como dizem nuestros hermanos… mas Nuno Casquinha e Manuel Dias Gomes “deram a cara”. Casquinha foi volteado no seu primeiro e mostrou entrega, poderío e superação com o seu segundo (o melhor Palha dos destinados ao toureio a pé). De Gomes guardo especialmente o saludo capotero em ambos os toiros. O seu lote não terminou de romper, mas ficou o “perfume” de um toureiro cada vez mais cuajado. Nota final para os homens de seda e prata. João Ferreira, João Martins e Filipe Proença “Chamaco” agigantaram-se com as bandarilhas.

TERÇA-FEIRA, 8: António Ribeiro Telles e João Moura Jr. (por motivos diferentes) ficaram no coração da afición vila-franquense. António e a Palha Blanco têm uma afinidade enorme. As duas actuações do Maestro da Torrinha tiveram um denominador comum. Lidou ambos os toiros de forma primorosa. E em Vila Franca ainda se sabe o que é isso! Ainda se sabe o que é Tourear a Cavalo! Os melhores curtos conseguiu-os com o “Alcochete” no quarto da função.  João Moura Jr. convenceu a Palha Blanco sobretudo com as “Mourinas”. Defendo que uma actuação não se pode resumir a isso, mas é justo mencionar que fez duas gaiolas, o que mostra as ideias com que chegou a Vila Franca. João Telles Jr. não teve a sua noite na Palha Blanco. Mais uma Terça-feira de exaltação ao Forcado Vilafranquense. Foram solistas Vasco Pereira à segunda tentativa, André Matos (que se despediu) também à segunda, David Moreira, Guilherme Dotti e Rui Godinho, os três à primeira e a encerrar Francisco Faria à terceira. Com quatro exemplares de superior apresentação, os Passanhas deixaram-se, dentro de vários matizes. Nota final para a Banda do Ateneu Artístico Vilafranquense que fez a apresentação pública do pasodoble Forcados de Vila Franca. Gesto bonito e merecido!

Foto: João Silva / Sol e Sombra

sábado, 28 de setembro de 2019

CAMPO PEQUENO: AS MODAS PASSAM…


Por: Catarina Bexiga

Sou optimista por natureza. Acredito na máxima do escritor William Arthur: “Para o optimista todas as portas têm maçanetas e dobradiças, para o pessimista todas as portas têm trincos e fechaduras”. Mas não deixo de ser uma pessoa inquieta e preocupada com o que vejo nas nossas arenas… Não vou escrever sobre as actuações de ontem no Campo Pequeno. Prefiro reflectir sobre o que poderia ser o nosso Toureio a Cavalo. João Moura Jr., João Telles Jr. e Francisco Palha são três dos nomes mais falados do momento. Entendeu a empresa do Campo Pequeno juntá-los no mesmo cartel, acreditando eu (e julgo que a maioria dos aficionados) que o fez para criar competição (a serio!), sentido de responsabilidade (a sério!) … a pensar no futuro!

Hoje querem-nos fazer acreditar num “toureio a cavalo” diferente do que é o TOUREIO A CAVALO. Já o disse várias vezes, que entendo (está escrito nos livros) que cada toiro tem a sua lide… e que é preciso saber interpretar o seu comportamento e depois revelar capacidade para, num jogo de terrenos e distâncias, actuar com intencionalidade, se possível corrigindo-lhes os defeitos e aproveitando-lhes as virtudes, etc... Por outras palavras, ter recursos para dar a volta a cada toiro. Todavia, actualmente, parte dos nossos cavaleiros entendem tourear todos os toiros da mesma maneira, como se o Toureio a Cavalo fosse uma ciência tão exacta e tão precisa como a Matemática… A moda chegou ao ponto de dar a mesma distâncias a todos os toiros, de citar de largo, de praça a praça, mesmo quando estes evidenciam que se distraem ou que exigem menos intervalo... A moda chegou ao ponto de pedir aos bandarilheiros para colocar o toiro nas tábuas, quando muitos se reservam ou se defendem nesse terreno… Como escreveu Fernando de Sommer d’Andrade “Qualquer sorte do toureio para sair perfeita e com mérito, para não ser por mera casualidade, tem que ser preparada. E a preparação da sorte resulta do estudo do toiro. Esta preparação constitui a lide do toiro.” A moda chegou ao ponto de que enganar a investida de um toiro, mandá-lo para fora da sua trajetória natural, e depois ter que passar em falso ou ter que cravar à garupa… merece a aclamação do público!!!??? A moda chegou ao ponto de o conceito do ferro ao estribo deixar de existir… Vencer o piton. Ter o centro da sorte dominado. Reunir de alto a baixo. Volto a recorrer às sábias palavras de Sommer d´Andrade “A reunião é o momento culminar do toureio!”

Escrevi inicialmente que preferia reflectir sobre o que poderia ser o nosso Toureio a Cavalo. Reconheço enorme valor em muitos dos nossos cavaleiros. É preciso saber valorizar e promover o que é nosso! O que nos torna distintos. O que nos torna grandes! As modas passam, os princípios e as regras estão inventados. Esses são intemporais!
Os toiros de Pinto Barreiros saíram justos de apresentação. O quarto da ordem foi o melhor do curro, teve mobilidade e prontidão; e o sexto o pior, não escondendo a sua conduta de manso. Os restantes cumpriram.

A noite de ontem teve a assinatura do grupo de Lisboa, que comemorou as suas Bodas de Diamante. Todas as pegas foram concretizadas à primeira tentativa. Foram solistas José Luís Gomes (quem sabe não esquece), Pedro Gil, Francisco Mira, João Maria Bagão, João Varanda e Pedro Maria Gomes. Mais uma noite para a história do grupo.

Foto: João Silva

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

MOITA: ROUXINOL JR. VOLTA A DAR A CARA…


Por: Catarina Bexiga

DECISÃO. RECURSOS. ENTREGA. PODERIO. MÉRITO. AMBIÇÃO. Seis palavras que definem na íntegra a actuação de Luís Rouxinol Jr., ontem, na Moita. Ao jovem de Pegões tocou em sorte um manso complicado de Prudêncio. De saída, montado no “Aquiles”, Rouxinol Jr. apresentou logo as suas intenções…  Um segundo comprido poderoso e um terceiro, a sesgo, extraordinário. Para os curtos sacou o “Amoroso”. Com o adversário a agravar cada vez mais o seu comportamento, a serie de curtos teve um mérito do “tamanho do mundo”. Deu a cara, entrou ao toiro sem medo, de forma atrevida, de forma arriscada, inclusive sofrendo um toque no terceiro ferro, a sesgo, mas daqueles que não desvalorizam em nada a actuação… Se tudo o que fez teve valor – com decisão, recursos e entrega – o segundo, quatro e sexto foram de nota elevada.

Depois desta actuação na Daniel do Nascimento volto a repensar sobre a valorização do nosso Toureio a Cavalo. Luís Rouxinol Jr. foi o que melhor toureou, mas o que menos palmas levou. É imprescindível que o público tenha a noção das coisas. O valor de cada actuação acontece em função do comportamento do toiro. Quanto maior a dificuldade, tanto maior é o mérito em superá-la. E o nosso Toureio a Cavalo vive disso. De saber entender um toiro. De saber lidá-lo. De procurar os melhores terrenos e as melhores distâncias para a consumação das sortes. De saber superá-lo! Ontem na Moita, Rouxinol Jr. esteve gigante!

Completaram o cartel, António Ribeiro Telles, que lidou com sabor e toreria o primeiro da noite; da voluntariosa actuação de Luís Rouxinol destacaram-se o segundo e quatro curto; João Moura Jr. deixou sempre o toiro na querença e a opção não surtiu efeito;  Andrés Romero cravou os ferros sem transcender; e António Prates voltou a andar irregular.  

Tratou-se de um Concurso de Ganadaria: o do Eng. Jorge de Carvalho foi manso encastado, o de Condessa de Sobral gazapón e faltou-lhe entrega; o de Ascensão Vaz revelou-se manso, com querença em tábuas; o de Passanha veio a menos; e o de Prudêncio foi manso complicado e o de Mata-o-Demo deixou-se ou... foi o menos manso. Por isso, lhe deram o prémio (Apresentação e Bravura). Em terras lusas há sempre necessidade de outorgar os prémios. De Apresentação destacaram-se também o primeiro, segundo e quatro.  

Noite dura para o Aposento da Moita, mas com “caras” valentes a superarem as dificuldades. Pegaram Rúben Serafim à terceira tentativa, João Ventura à segunda, Martim Cosme à primeira, Leonardo Mathias à primeira, Marco Ventura (que dobrou Martim Afonso) à terceira e João Gomes à terceira. Apesar de pegas diferentes, tiveram enormes João Ventura e o cabo Leonardo Mathias.

Foto: Pedro Batalha

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