Por: Catarina Bexiga
Dizem que é o melhor toureiro da
história. E eu acredito. O seu conceito rompe protótipos. Em si vemos vários
toureiros e várias épocas do toureio. Vemos o melhor de Joselito, Belmonte,
Chicuelo, entre outros. José António, Morante de la Puebla, resume a história
do toureio. Há quem lhe veja tudo e quem não lhe veja nada. É normal, porque o toureio
tem destas coisas. Mas José António tem algo diferente…sobra-lhe (em sentido
figurativo) torería. Em todas as expressões, em todos os gestos. Em todo o
corpo, há um toureiro. O seu conceito tem feitos sonhar os aficionados. Como aquele
14 de Junho de 2005 em Salamanca – que tive a sorte de ver «in loco» – sobre a
qual José António definiu: ¿La faena de su
vida? “Puede que sí, ahora mismo no recuerdo una igual. A esta le he puesto el
corazón y el alma, y he sentido cosas muy bonitas”; ou como aquele 5 de Abril de
2006 em Sevilla, em que o de La Puebla definiu: "Si no fue la faena soñada,
estuvo muy cerquita.". José António é um privilegiado; e nós,
aficionados, igual. Porque nascemos e vivemos no seu tempo.
Ontem vimo-lo no Campo Pequeno.
Como ele próprio é. No entanto, trazer uma Figura do Toureio a Portugal tem que
se lhe diga. As imposições são sempre muitas…e há sempre quem tenha que ceder.
Os dois toiros de Álvaro Nuñez, terciados, resenhados para Morante de la Puebla
não me surpreenderam. O episódio repete-se quase sempre que uma Figura do
Toureio se deixa anunciar no nosso país. Salvo raras excepções. E houve mesmo quem
mostrasse o seu descontentamento, mas o ambiente (festivo) fez parecer outra
coisa. Não reclamo para o Campo Pequeno, o toiro de Madrid ou Bilbao, mas, o
Campo Pequeno merece um toiro com apresentação condizente com a sua categoria.
E isso não aconteceu. O certo é que quanto mais importância se dá ao toiro…
mais importância terá a obra com ele conseguida. Não tenham dúvidas.
José António, Morante de la
Puebla, manteve a chama acesa toda a noite. Toureou à verónica, ao ralenti, rematando
com meia, seguido de um quite por chicuelinas, o seu primeiro. Depois começou a
faena junto a tábuas com o braço esquerdo apoiado na madeira, com tremendo
gosto e imensa torería. Como foi aquele trincherazo imortal. O toiro revelou-se manso, com tendência para
descair para os terrenos de dentro, mas Morante colocou harmonia em tudo o que
fez, sobressaindo vários derechazos… que muitas vezes pareceram intermináveis. Com
o seu segundo, agitaram-se as bancadas quando pediu para bandarilhar. Todavia,
contou mais a intenção, do que os resultados. O toiro de Álvaro Nuñez tinha
mais exigências que o anterior, e obrigou a um Morante mais sabedor. Começou a
faena de joelhos em terra, com ajudados por alto, para depois ir construindo a
faena pouco a pouco, tendo como epilogo uma serie de naturais, com vários
muletazos que ficam na retina.
A poucos dias de tomar a
alternativa, Tomás Bastos teve uma noite que terminou melhor do que começou.
Recebeu o seu primeiro à verónica, seguindo-se um quite por saltilleras. O
novilho de La Cercada não lhe colocou as coisas fáceis. Bastos tentou a sorte
pelos dois pitóns, mas a falta de raça do inimigo condicionou muito o luzimento
do seu labor. Para receber o último colocou-se de joelhos para um farol seguido
de verónicas. E o ambiente aqueceu. Pediu também ele para bandarilhar,
mostrando que é um tercio que domina com facilidade. O início da faena foi
titubeante, até que entendeu o novilho e a faena foi crescendo de interesse. Sobressaíram
as últimas series de naturais, largos e com empaque. Terminou a faena por
ajustadas bernardinas.
A noite começou com o toureio a
cavalo. António Ribeiro Telles rubricou uma actuação dentro do que nos habituou
ultimamente. Dos três compridos, destacou-se o terceiro, poderosíssimo. Depois,
montado no Alegre, preparou as sortes com classe, com o cavalo a passo, sabendo
o que estava a fazer. A serie de curtos teve como ponto alto o terceiro.
Fermín Bohórquez vestiu-se de
toureiro, por um dia, para fazer as cortesias no Campo Pequeno. Andou a gosto,
sem lhe pesar o regresso, logrando uma actuação vistosa, rematada com dois
pares de bandarilhas.
Lidaram-se dois toiros de
Murteira Grave fáceis, tendo o segundo proporcionado a chamada do do ganadero à
arena. Prémio que me pareceu excessivo.
Pelos Amadores de Santarém
pegaram Francisco Graciosa à primeira tentativa e Salvador Ribeiro de Almeida à
segunda.
No inicio, o compositor António Catalão Labreca entregou a Morante de la
Puebla a partitura com o pasodoble que lhe dedicou e que foi escutado durante
uma das suas faenas.
A predisposição para ver o
diestro de La Puebla foi a mesma toda a noite. Porque se a lotação do Campo
Pequeno esgotou quatro dias antes foi graças a ele. E no fim, o esperado:
Morante em ombros pela porta grande do Campo Pequeno!
FOTO: PEDRO BATALHA
